A Natureza do Homem Natural e do Homem de Deus

Texto Base Mt.5. 13-16

Aristóteles, o filósofo grego seguidor de Platão, na época áurea dos grandes pensadores em Atenas (300 a.C.), afirmava que o homem é um ser comunitário e falante. Em contrapartida o inglês Thomas Hobbes, já bem próximo dos nossos dias, (1588-1679) especificava o homem como um indivíduo, alguém isolado em sua força, necessidade e ambições, mais preocupado em preservar sua vida do que qualquer outra coisa. Ou seja, o homem de Hobbes, antes de ingressar na vida comunitária e social, se encontra em um estado de natureza em que cada homem é lobo do homem e é capaz de tomar as atitudes mais drásticas em nome de sua própria segurança.

Os pensadores e filósofos procuraram e procuram de todas as formas, em todos os tempos, entenderem e especificarem o homem em si mesmo, cada um segundo suas próprias experimentações sociais e estudos científicos, dos quais dedicaram muitos dias de suas vidas, entretanto, o homem não pode ser entendido somente no contexto humano de sua natureza natural. O homem não é somente um ser biológico e sim também espiritual. As tentativas e tratativas feitas durante os últimos milênios não conseguiram conceber uma definição homogênea do homem. Ela nunca será entendida sem que haja uma profunda análise de suas naturezas: a natural e a espiritual.

No estado de natureza, contudo, a vida do homem está ameaçada pelos conflitos de interesse de todos os seres. Quem não tem, seja lá o que for, quer ter. Quem tem, quer manter e, se possível, ampliar. A guerra é constante, bárbaros invadem os territórios uns dos outros e tomam tudo o que podem, escravizam, estupram e matam impunemente. É exatamente o contrário daquilo que Hobbes chama de estado civil ou o estado de cultura, quando todos os homens, renunciando a todos os seus direitos naturais, submetem-se a um terceiro direito, seja ele emanado de um homem ou de uma assembléia designada como soberana.

Pelo contrato firmado e aceito, o homem natural admite sua incapacidade de viver em paz em seu estado primitivo de vida e constitui o que é chamado de Estado ou República - para Hobbes o Estado e República são o grande Leviatã (o título do livro mais conhecido dele) isto é, um corpo político, um ser artificial com total e absoluto poder.  
O homem tem enfrentado um estado de insegurança que retrocede do estado da República (em latim, civitas) para o estado de natureza, vivendo de modo selvagem e primitivo, aqueles tipos que viviam de modo selvagem antes de contrair o que Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo de Genebra, classificou como o pacto de associação civil. O pacto é rompido diariamente, e a comunidade se inquieta diante do fracasso de sua organização social. Há uma horda de bárbaros à solta que é capaz de se valer do corpo político do Estado para garantir suas prerrogativas de sobrevivência sem obedecer a nenhuma lei.

O contrato social para Rousseau tem uma base moral. Cada indivíduo presta contas livremente a sua consciência moral e, quando obedece a uma lei, nada mais faz do que obedecer a si mesmo. Isto demonstra que a visão romântica e idealista de Rousseau se sobrepôs ao realista e prático Hobbes. O pacto social que realmente vigora atualmente é o que se dá dentro de cada indivíduo.

O homem em seu estado natural é um caos, a consciência moral e ética de sua organização natural está abalada. Hobbes e Rousseau não são apenas referências de esnobismo didático desta pastoral, mas evidências de que os atuais problemas do próprio homem em sua maneira natural de viver já foram profundamente analisados em todas as suas complexidades e sabemos que a barbárie retorna fortemente quando a organização social falha e isto em todas as culturas que campeiam o nosso planeta.
Existe solução e esta solução é bem simples. O homem natural só sai do caos quando o espiritual de Deus é amalgamado ao seu mundo natural.

Quando aceitamos o Senhor Jesus Cristo como nosso único e suficiente salvador, deixamos nossa vivência exclusiva do mundo natural e somos homogeneizados nas duas naturezas, a natural e a espiritual. É o maior milagre que pode existir na vida do homem: Deus brada dos altos céus que haja vida em nós e vida em abundância e o Deus Espírito Santo vem até a divisão de nossa alma e do nosso espírito e coloca o selo da promessa, o penhor, a garantia de que somos pertencentes ao Deus Eterno e Trino, o qual passa a morar em nós, tornamo-nos templo do Espírito Santo e com isso, deixamos a condição natural de sermos apenas criaturas e passamos a estar na condição estabelecida pelo próprio Eterno como Filhos de Deus. Deus escreve nosso nome no Livro da Vida e mergulha-nos em seu corpo místico, que é a Igreja do Senhor Jesus Cristo, o nosso primeiro batismo.

Vivendo o natural com a condição do espiritual fazemos a diferença. Somos o tempero de Deus na sociedade humana. É bom conscientizarmos do nosso espiritual. Se um tempero não tiver sabor, não fará diferença. Se não fizermos o esforço necessário para influenciar o mundo ao nosso redor, seremos de pouco valor para Deus. Se formos semelhantes ao mundo, não teremos importância. O espiritual não mistura os valores cristãos com os mundanos, a fim de que possa influenciar positivamente as pessoas ao seu redor, assim tal qual o tempero na comida ressalta o melhor sabor.

Se vivermos para Cristo, aplicando o espiritual no mundo natural, brilharemos como luzes e mostraremos aos outros como Cristo realmente é. Nossa natureza espiritual nos impelirá a explicar aos outros a origem de nossa luz. Sejamos, então, com nossa dupla natureza, um verdadeiro farol da verdade, não ocultando a luz de Cristo ao restante do mundo, para que as pessoas possam também adquirir o espiritual de Deus em suas vidas.

Nesta pastoral chamo a atenção para vivenciarmos a grande diferença que Deus faz na vida daqueles que aceitam o Senhor Jesus Cristo como único e suficiente salvador de suas vidas, pois possuem o espiritual de Deus e passam a ser vencedores e não vencidos, vitoriosos e não derrotados, abençoados e não amaldiçoados, amados e não desamados, queridos e não rejeitados, agraciados e não desgraçados, salvos e não condenados, Filhos de Deus e não filhos do diabo.

Abraços em Cristo
Pr Gilberto Precinotti